QUAL É A NOSSA CEGUEIRA?

10.04.17

QUAL É A NOSSA CEGUEIRA?

Uma cartografia global sobre poder, dinheiro e o modo de vida contemporâneo, a intervenção urbana "Cegos" embarca para a Europa neste ano. Para levar este trabalho do Desvio Coletivo ao Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria de Feira (Portugal), Zurique (Suíça), Berlim (Alemanha) e na China - programação do World Stage Design, que acontece de 1º a 9/07 em Taipei, Taiwan e China, o coletivo deu início a um finaciamento coletivo visando arrecadar fundos para a difusão mundial dessa produção artística brasileira. As doações vão de R$ 10,00 a R$ 2000,00 e podem ser feitas no site de crowndfunding CatarseConfira entrevista com os produtores Leandro Brasilio e Marie Auip, e com os diretores Marcos Bulhões e Priscilla Toscano para o MOTIN

MOTIN: O que mudou, ou foi acrescentado da primeira performance em 2012 para cá?

PRISCILLA TOSCANO: Quando fizemos essa intervenção pela primeira vez, em outubro de 2012, na Av. Paulista, nosso desejo era espelhar a vida petrificada por um sistema social automatizado e aprisionado às normas impostas pelos poderes no eixo político, financeiro e religioso de nossa sociedade. Queríamos representar a transformação de nossa existência em mera atividade produtiva, reduzidos a máquinas de trabalho. No atual contexto brasileiro é inevitável que essa imagem não seja associada a uma elite política e empresarial suja, corrupta, criminosa, vendida ao capital financeiro.  Trata-se de uma ação artística que só ganha sentido ao ser realizada na rua, por isso a classificamos como Performance Urbana. Ela acontece em deslocamento e conforme fomos experimentando entendemos que o trajeto dessa caminhada deveria levar em consideração uma rota onde fosse possível passar diante de edifícios de poder: prefeituras, palácios de governo, secretarias, justiça federal, entre outros. Como nossa crítica está direcionada a diversos eixos do poder, também optamos por inserir em nossos trajetos, percursos com igrejas (independente da religião), bancos (públicos e privados), além dos edifícios  onde nossos políticos exercem seus mandatos. Aos poucos, também fomos entendendo que parar diante desses símbolos e fazer gestos e ações potencializava a obra e era fundamental para nos relacionarmos de maneira crítica ao que essas instituições representam. Passamos a aprofundar essa relação nas oficinas preparatórias e a estudar a cartografia das cidades com os participantes, bem como a criar o repertório de ações com eles após longas discussões sobre a política em cada um desses lugares. 

 
LEANDRO BRASILIO: Para ilustrar, em uma das cidades em que a performance foi apresentada, os participantes, consensualmente, escolheram um gesto praticado por um político que o identificou e o diferençou durante toda a sua campanha eleitoral. Para nós, visitantes, aquele gesto pouco fazia sentido, no entanto, no momento da intervenção na rua, a percepção pelas pessoas foi imediata. Incluir a visão dos participantes, abrindo o diálogo, sempre no campo do consensual, e não do democrático, ou seja, se algum dos participantes se negar a realizar um determinado gesto, ou ele é convencido pelo grupo da importância daquilo ou abortamos esse gesto, mas nunca o obrigamos por vontade da maioria, é trabalhar sempre com o desconhecido, já que a participação em "Cegos" não passa por nenhum filtro ideológico ou partidário, tendo como único critério conceitual que se proporcione uma reflexão sobre a cegueira local em relação as minorias, ao grupo oprimido por um sistema perverso e desigual. Por esse motivo, a inscrição é aberta ao público em geral e sempre é gratuita para que isso não funcione como um mecanismo de controle. Então, de 2012 para cá, a principal mudança dessa performance reside no caráter relacional do nosso trabalho, que não vai até uma cidade para utilizá-la como cenário, mas como linguagem. Isso faz com que a pauta por nós discutida seja o assunto da ordem do dia num determinado tempo e espaço, e não somente a opinião do integrantes do grupo. É a arte refletindo em tempo real aos fenômenos da vida.


MOTIN: Por serem um grupo artivista, sem nenhum financiamento institucional, como o coletivo consegue se manter? E quais as críticas que vocês gostariam de fazer (boca no trombone) quanto a atual política cultural de São Paulo?

MARIE AUIP: Os modos de criação propostos pelos artistas que pesquisam a performance, convergem também para modos de produção que visem modificações nos antigos modelos de gestão na arte. Dessa forma, junto com o nascimento do conceito da performance arte, se tornou necessário, também, formas de produção em arte que estejam na contramão dos processos mercadológicos anteriormente impostos. Nesse movimento, o Desvio Coletivo é um grupo que desenvolve suas ações através dos meios estéticos contemporâneos e com ligação forte nos movimentos sociais e políticos. Acreditamos que com a Intervenção Urbana, dialogamos com o local “público”, tentando estabelecer uma presença artística junto ao tecido citadino. Assim como muitos coletivos, nós também, reformulamos nosso fazer artístico em prol de um ativismo dentro da sociedade. Estabelecendo linha tênue entre a arte e a política, indo além da esfera do sistema político institucional-governamental. Assim, a intervenção|performance|ativismo são palavras que permeiam nosso cotidiano enquanto grupo que se auto produz. Atualmente, independente de financiamentos públicos ou privados. Produzir uma arte artivista não é algo fácil quando falamos do caráter financeiro, pois o ativismo, promove e reações como: desconforto, desagrado, questionamentos e que subvertem a lógica do capitalismo. Contudo, estabelecemos diálogos em várias esferas da produção.  Parte da nossa produção está inserida em circuitos transversais de arte como festivais e editais, mas também fazemos questão de manter parte das nossas ações performativas na esfera do radical. Nessa perspectiva, acreditando na arte enquanto condição de vida, um investimento próprio enquanto artistas questionadores. Para tal, acreditamos também em novos modos de financiamento e formatos de produção. 


LEANDRO BRASILIO: Acerca da política cultural de São Paulo, o que tenha a dizer é que a cidade atravessa uma momento muito triste de sua história. Pela nossa Secretaria Municipal de Cultura já passaram nomes que influenciaram e foram determinantes para suas épocas, (artistas, teóricos, pensadores etc). A atual gestão resolveu, em nome do ódio generalizado, esquecer o que a nossa cidade representa para o mundo, o quanto ela já influenciou e o quanto ainda pode influenciar, e promover o desmonte institucional de programas, projetos e ações que tornavam São Paulo referência em políticas públicas para a Cultura no Brasil e no mundo. Essa gestão, pautada pelo interesse de uma classe média confusa, tenta apagar o brilho da nossa cidade, sob o slogan de uma cidade linda, mas que na verdade apenas expressa o pensamento de quem não conhece São Paulo. O congelamento de quase metade da verba destinada a cultura, que representa menos de 1% no orçamento total da cidade é uma das atitudes mais cruéis que um gestor pode adotar. Nesse momento precisaríamos de um secretário com opinião forte e conhecimento de causa para levantar a bandeira da pasta, que defendesse o interesse da população de modo a garantir a diversidade de ações culturais, e não tratar a pasta como trata a curadoria de uma exposição de um museu elitista, do qual apenas poucos podem usufruir.  Para finalizar, o que posso dizer é que precisamos abrir espaço para a arte, para a cultura. São Paulo é uma das maiores cidades do mundo e merece muito mais do que ser subserviente ao capital estrangeiro, sem cor, sem vida, cinza. 


MOTIN: Que impactos a turnê internacional do desvio poderá reverberar dentro do Brasil - ou quais são as expectativas do DC para esta ação na europa e na Ásia?


MARCOS BULHÕES: Nos últimos cinco anos, graças ao apoio de mais de mil participantes que atuaram voluntariamente na performance "Cegos", às parcerias (coletivos artísticos, universidades, sindicatos) e aos editais nacionais (Palco Giratório, Miriam Muniz) conseguimos traçar cartografias da cegueira das elites em 25 capitais brasileiras. É uma circulação rara no campo da Performance no Brasil. Ampliar esta cartografia para os centros do capitalismo mundial é um desejo que nos move desde 2013: Paris, New York, Amsterdam, Funchal, Barcelona, Praga e Costa Rica já tiveram suas versões da obra, pensadas com os participantes locais. Este ano teremos a oportunidade de cartografar esta cegueira em Portugal, Suíça e China. Continuar esta cartografia através de eventos de cárter internacional e global, é, ao nosso ver, um passo significativo que reverbera positivamente para os demais criadores da arte performática brasileira. Existem inúmeros criadores potentes em intervenção artística urbana, ainda pouco reconhecidos dentro e fora do país. Exemplos desta rica atividade cultural serão apresentados e discutidos em nossas oficinas, assim como em palestras com a presença de curadores de diversos festivais. Esta ampliação da presença da performance urbana brasileira em eventos internacionais, contribui para a visibilidade de nossa produção no sistema de arte internacional, abre caminho para novas conexões com outras culturas. Do ponto de vista da ação política, nossa expectativa é que esta circulação configura um passo importante para ampliar este mapa mundial da cegueira e da sujeira da elite financeira, política e midiática, que provoca o aumento da desigualdade e destruição. Nossa meta final é a publicação de um site com esta mapeamento, contendo registros e análises dos debates locais e das diferentes adaptações da obra em diversos continentes.


Mais Informações:
O Desvio Coletivo é um grupo artivista, com independência política e sem nenhum financiamento institucional, que se dedica à criação da cena contemporânea na zona de fronteira entre o teatro, a performance, a intervenção urbana e a produção de vídeo. O coletivo, sediado em São Paulo, vem apresentando desde 2011 diversas ações performativas e espetáculos em quase todas as capitais brasileiras, além de ter circulado por Barcelona, Paris, Amsterdam, Nova Iorque, Praga, Santiago, Ilha da Madeira, dentre outras.

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